Tão chato quanto ter amigos que combinam eventos envolvendo carne baseados na “unanimidade menos você” é você ser o único vegetariano da turma da faculdade ou do colégio e essa sua turma também ser adepta da “unanimidade menos você”, da ditadura da maioria. E, baseados nisso, marcarem confraternizações em churrascos - e excluírem você da parada.
Aí eu parafraseio, com adaptações, o que eu tinha falado sobre os amigos que fazem happy-hour em rodízios de carne:
Aí, das duas uma: ou você se exclui dessas confraternizações, correndo o risco de se tornar um integrante de segunda classe da turma, aquele que está mais isolado e menos por dentro dos babados da galera, ou vai aos churrascos e se sujeita a tudo quanto é brincadeirinha antiamistosa, mesmo sem você falar um piu sobre vegetarianismo: provocações tentadoras (do tipo “picanha suculenta, que delícia”), piadinhas alfacistas, gozações, criancices do tipo repetir nomes de tipos de carne bovina…
(E isso piora pelo fato de a maioria não ser amiga, mas sim apenas colega. Isso dobra o risco e a quantidade de escrotices que a galera irá aprontar contra você)
E isso porque eu não falei da “tarefa de Hércules” que é ver na grelha e nos pratos da turma aqueles pedaços mutilados que um dia foram músculos de animais que queriam mais estar vivos e livres mas foram sujeitados a uma vida inteira de escravidão, mutilações, sofrimento e negação de qualquer direito. Você acaba tendo que fazer algo simplesmente insuportável: reprimir dentro de si toda e qualquer imagem mental de animais sofrendo, sendo roubados de suas mães e amputados (nos chifres, no bico, na cauda, nas tetas, nos dentes, nos testículos), sentindo a agonia do caminhão de carga-viva e da proximidade da morte sangrenta no matadouro. Não é nem falar pros seus colegas dessas coisas, mas reprimi-las dentro de você, de modo a tentar não ficar com nojo ou compadecimento por todos que morreram pra que esse churrasco fosse realizado!
Nesse caso, fica difícil saber como lidar com a situação. Se for uma turma alienada em relação ao que você talvez fale de vez em quando sobre consumo de carne, aí é complicado até de sugerir alternativas comemorativas à galera. E, como a maioria não é amiga propriamente dita, mas sim apenas colega, a complicação em você tentar fazê-los entender sua situação é elevada ao quadrado.
Aí, na minha opinião, não sobra outra alternativa a não ser recusar ir a esses eventos. Vai ser quase a mesma coisa de você não poder ir por causa de um compromisso ou porque ficou doente. Procure então, se você fizer questão de ser bem enturmado, tentar ser mais próximo da turma em ocasiões não alimentares.
Mas, no final das contas, se você tem amigos verdadeiros na turma, perceba que eles não serão menos amigos seus por você recusar ir a confraternizações regadas a carnes.